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room mate

a gata chegou há uma semana e instalou-se.
fui buscar uma já grande ao canil porque criar uma de pequenina seria muito fácil. assim, já gatona feita será muito mais desafiador. por isso fui sozinha e limitei me a olhar para todos os abandonados da sociedade ali numa única divisão bafienta e esperei ser escolhida. com os gatos é assim. não adianta escolhê-los se não nos escolhem a nós primeiro. alguns roçaram-se na ganga das calças, miaram para mim e tal mas nada de mais. uma gata grande e gorda lambeu-se em jeito de se aprontar e sentou-se a olhar para mim na soleira da porta. quando saí ela veio pata ante pata à minha frente e que remédio tive eu se não trazê-la.

Jul. 19th, 2005

ele casou com uma gaja boa.
não era feia, nem sequer muito burra. mas o que saltava à vista é que ela era mesmo muito boa. parecia "desenhada a lápis" como diziam os amigos. era barmaid numa discoteca da moda, e rapaz novo que se preze tem de puxar a inveja aos camaradas.
chamava-se carolina.
dois anos depois da boda ela estava mais gorda do que a sogra e foi despedida.

Jul. 18th, 2005

hoje, do nada, deu-me saudades do nosso verão. saudades de tudo o que não aconteceu e tudo o que sentimos nas entrelinhas da casmurrice.
meninos crescidos deviam saber mais do que simplesmente adiar o inevitável. agora existe um longo compasso de espera em que nenhum de nós se lembra do outro, salvo nestes rasgos passageiros.
um dia tudo vai acontecer.
o que não aconteceu naquele verão, o que é suposto acontecer no presente futuro, e uma imensidão de sentimentos adormecidos neste espaço vazio que nos separa.

Feb. 16th, 2005

ser poser. preocupar-me todos os dias em estar in. lux, lounge, bairro alto. cortar o cabelo só na facto. ténis só de marca e para cima de 100 euros. falar com vozinha de menina frágil, usar muitos pins e parecer anoréctica. carregar livros de design. ouvir bandas desconhecidas no i-pod. ter um namorado com bigode. beber àgua por palhinhas multicolores. ter um site. tirar fotos profundas. estar-me a cagar para todas as pessoas que pareçam normais. pintar os lábios de vermelho dá sempre um ar trágico. andar de bicicleta. reciclar roupa para vender aos amigos. ter uma gata. odiar microsoft. ser arrumadinha e pintar estrelas no tecto do quarto. ter tatuagens em sítios ossudos. não fazer compras na fnac. andar sempre com a polaroid atrás. recusar-me a comprar um telemóvel topo de gama. nunca passear sózinha pela baixa. não saber cozinhar.

Jan. 17th, 2005

No dia em que os apresentei ela furou a sola do pé na cavilha de uma das tendas do parque de campismo. Ele era mais alto, o que era raro acontecer, e tinha um problema de heroína. Ela passava uns dias de férias e licenciava-se em psicologia daí por dois anos.
Seis meses depois casaram-se.
E eu que só os apresentei porque sim fiquei com peso na consciencia. Fiquei vezes sem conta a recapitular como tudo podia ser diferente se numa estúpida fracção de segundo, junto aos lava-loiças não tivesse dito fulana tal este é o sicrano tal e vice-versa.
Não bastava roubar-me uma amiga, por razões que não compreendo, ainda roubou uma filha aos pais, porque ela nunca mais foi a mesma. Nós, que gostávamos dela a sério levantámos armas, mas de nada valeu.  Não voltou a Coimbra para estudar.
Hoje as amigas dela são as que disseram que sim a tudo, as que posaram nas fotos do casamento e compraram prendas ao bébé. Eu sou a que ele proíbiu de ver, de telefonar, ou sequer de trocar olá bom dia nos transportes públicos.
Dez anos depois ele morreu com uma doença ruím.

Jan. 14th, 2005

Alguém que conheço mora em Almada. E por alguma razão que não me lembro recusa-se a andar de barco. Não atravessa o rio simplesmente. Há anos que não passa para esta banda. Pergunto-lhe porquê várias vezes, devidamente espaçadas no tempo, e espero uma razão nova. Ele encolhe os ombros e repete em todas  “tenho medo!”.

Jan. 14th, 2005

A rapariga que lia os livros de trás para a frente levava aquilo muito a sério. E como tal começou a vida da mesma forma. Aos 18 anos, a idade em que legalmente somos inteiramente responsáveis pelos nossos actos, casou-se e teve um bébé. Como ser dona de casa é tarefa mais complicada do que se julga, anos depois inscreveu-se na faculdade, deixou o filho com os avós e está em Erasmus.

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